Freguesia de Vermoil

O espectro que não emerge da melancolia

A passagem da figura de João de Barros pelo lugar de Vermoil, é um assunto que há muito tempo desperta a afabilidade de curiosos, muitos, tendem mesmo a atribuir a naturalidade do autor Quinhentista a este pequeno lugarejo.

Não existe prova Histórica que ateste a data e o local corpóreo do nascimento de João de Barros, mesmo assim, acredita-se que poderá ter nascido por volta de 1496 em Viseu (local onde residiu o seu pai). Ademais este local, o Cónego Manuel Serafim de Faria, da Sé de Évora, que viveu no século XVII e estabeleceu a biografia de João de Barros, aponta como outros locais possíveis; Braga, Vila Real, ou mesmo Pombal, este último parece-me totalmente céptico, visto que, a Quinta da Ribeira de Alitem é herança da sua futura esposa, D. Maria de Almeida, Filha de Diogo de Almeida de Pombal.

João de Barros descende de um Nobre de sangue; Lopo de Barros, a identidade da sua mãe é ainda hoje oculta, o seu topónimo “Barros”, deriva da região Minhota, onde a família detinha propriedades. O corregedor de Entre-Tejo e Odiana; Lopo de Barros é o responsável pela entrada na corte do seu filho, ele recomenda-o a D. João de Meneses, que apadrinha a sua entrada na corte ao serviço do rei D. Manuel. O monarca, desafia João de Barros a lançar-se nos estudos das Humanidades, ele possuía um excelente domínio da língua Grega e do Latim. O contacto intelectual com os novos mundos, novas gentes e novas culturas humanas, influenciam a sua educação, este é um tempo de profunda influência Ultramarina. A juntar ao desempenho intelectual, João de Barros vai cumprir funções de moço de guarda roupa do príncipe D. João (D. João III), o seu contacto com o futuro monarca vai ser determinante na maturidade da sua carreira, assim porque, depois da subida ao trono de D. João III (1521), João de Barros é nomeado em 1522 para a capitania de S. Jorge da Mina (na costa do ouro), cargo que irá ocupar até 1525.

Já depois de firmado o seu casamento com D. Maria de Almeida, do qual vão nascer Dez filhos, João de Barros vai em 1525 ocupar o cargo de Tesoureiro da Casa da Índia, Mina e Ceuta. Em 1530 regressa a Portugal e vê-se obrigado a procurar refúgio (devido à peste de 1530) na Quinta da Ribeira de Alitem. Neste curto período de Três anos no campo, terá escrito a pedido do seu amigo Duarte de Resende, a obra “Rhopica Pneuma”.

João de Barros foi um homem de inesgotável honestidade, esta sua virtude leva a que D. João III o nomeie Feitor da Casa da Índia, e lhe ofereça como prova de gratidão em 1535 a Capitania Brasileira do Maranhão no âmbito da política de fixação no Brasil. Já depois da associação com Ayres da Cunha e Alvares de Andrade, e com a finalidade de efectivar os direitos de Donatários das Capitanias Brasileiras, parte do Tejo comandada por Ayres da Cunha uma armada de Dez navios que: “Nos recifes à entrada do Amazonas. Uns naufragaram, outros perderam o rumo.” Perdem-se muitas vidas, entre as quais, a de Ayres da Cunha, a sua morte é determinante na falência do projecto. Sem ficar melindrado com a tragédia, João de Barros tenta por sua conta enviar nova expedição em 1536, comandada por dois dos seus filhos; Jeronymo e João, a expedição revelará novas consequências calamitosas.

Estas experiências tornar-se-ão num cataclismo financeiro, mesmo assim, João de Barros nunca se vem a servir dos desastres para obter compensações do monarca, ele prefere indemnizar e atribuir pensões às famílias das vitimas dos “desaparecidos na tormenta”, chega mesmo a hipotecar os seus bens.

Os últimos anos de vida de João de Barros, são com absoluta certeza passados na Quinta da Ribeira de Alitem, depois do pedido de renúncia do cargo de Feitor da Casa da Índia em 1567, empunha uma vida no campo. A sua morte foi causa de uma Apoplexia, depois de ter perdido a fala e estar entrevado nos últimos anos da sua vida. Diz o Couzeiro que no século XVII existia uma ermida: “da invocação de Santo António, a qual mandou fazer João de Barros, que compôs as Décadas; a cuja fábrica obrigou a sua quinta, que está na banda d’além, no bispado de Coimbra; e por falecer nesta quinta foi sepultado na dicta ermida, no ano de 1571.”

Em 1610 por vontade do seu afilhado D. Jorge de Ataíde, Bispo de Viseu, foi trasladado para a igreja Matriz de Alcobaça, era sua vontade erguer um túmulo digno do nome do seu padrinho, esse túmulo nunca foi erguido, e as suas ossadas acabaram por se perder entre outras no anonimato. Tal qual as suas ossadas, também os vestígios da passagem de João de Barros por Vermoil foram ignorados. A sua figura merece pela sua importância um destaque mais relevante, infelizmente esse destaque têm-se vindo a perder no esquecimento e na ignorância.

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David Miguel dos Santos Mendes

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